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Unicamp descobre droga capaz de deixar células mais saudáveis durante envelhecimento


Tempo de vida de verme estudado em pesquisas sobre longevidade aumentou 18% com uso de medicação enoxacino, que provocou aumento da vitalidade. Pesquisa foi publicada em periódico internacional. Caenorhabditis elegans, verme analisado em pesquisa sobre longevidade do Laboratório de Biologia do Envelhecimento, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em Campinas. Sarah Azoubel Lima/Divulgação Mais saúde na velhice. O Laboratório de Biologia do Envelhecimento, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em Campinas (SP), descobriu uma droga capaz de aumentar a vitalidade das células de vermes, interferindo tanto no tempo quanto na qualidade da vida deste ser vivo. O estudo foi publicado no periódico internacional Redox Biology. O medicamento que apresentou o avanço nas pesquisas, iniciadas há cinco anos com colaboração nacional e internacional, é o enoxacino. Um agente antimicrobiano já usado para tratar infecções urinárias em humanos. "Muita gente não considera o envelhecimento um processo a ser tratado como uma doença, todo mundo envelhece um dia. O que a gente quer não é tornar as pessoas imortais, mas que elas envelheçam com mais saúde", explica o coordenador do estudo, Marcelo Mori. Os vermes Caenorhabditis elegans - medem no máximo 1 mm e são frequentemente usados em estudos sobre envelhecimento por terem um ciclo de vida de até 30 dias - viveram 18% a mais com a droga, se comparado aos que não foram submetidos à substância. "É o avanço mais recente nas pesquisas brasileiras sobre esse tema", afirma Mori. Pesquisador e coordenador do estudo da Unicamp sobre droga que reduz efeitos maléficos da velhice, Marcelo Mori. Sarah Azoubel Lima/Divulgação Como a droga age Mori explica que o diferencial está no impacto da droga nas moléculas reguladoras microRNAs, presentes no genoma de uma diversidade de organismos, de plantas até animais. "A gente observa que é uma via que envolve a produção de moléculas chamadas microRNAs. Quando ela está ativada, ela é pró-longevidade. Quando é inibida, está associada ao envelhecimento precoce, a doenças", explica o pesquisador. Entre os males causados pela inibição dessas moléculas, estão: diabetes, doenças vasculares e processos inflamatórios associados a doenças crônicas. Vermes estudados em pesquisa sobre longevidade na Unicamp, em Campinas. Marcelo Mori/Arquivo pessoal Nos vermes, foi visível a preservação da capacidade motora na velhice desses animais que usaram a droga. "Acontece com o verme e com humanos. A gente vai perdendo músculos, coordenação, os vermes também perdem capacidade motora. No verme a droga consegue preservar por mais tempo a capacidade motora". Os pesquisadores concluíram que a via por meio dos microRNAs é chave no controle do processo de envelhecimento baseado em dados de associação genética. O estudo já está sendo feito também em camundongos. "A gente tem dados positivos contra doenças metabólicas. É bem possível que ela [droga] tenha um comportamento positivo em mamíferos maiores", acredita o coordenador. Pesquisa da Unicamp que estuda efeito de medicações em microRNAs causando efeitos benéficos na velhice é coordenada por Marcelo Mori. Sarah Azoubel Lima/Divulgação Princípio ativo em nova droga Por ser um antibiótico, Mori afirma que, com a descoberta, os pesquisadores estudam uma maneira de usar o princípio ativo para desenvolver uma nova medicação, sem efeitos colaterais. Atualmente, o enoxacino atua em duas frentes: na bactéria a ser combatida, e diretamente nas células, reduzindo a sua degeneração. "A gente tem um processo de melhoramento da droga para conseguir chegar num ensaio clínico que traga benefícios para população. [...] A gente quer preservar só o efeito nas células, que é o que contribui para a longevidade", afirma. Outra droga que vem sendo estudada com efeitos pró-longevidade é a metformina, mas ela apresenta uma ação diferente nas células. Altera o metabolismo, mas sem os efeitos nos microRNAs. "Como atuam por vias diferentes, pode ser que elas sejam aditivas, é uma possibilidade", avalia Mori. Verme estudados em pesquisa sobre longevidade na Unicamp, em Campinas, apresentou aumento no tempo de vida. Marcelo Mori/Arquivo pessoal Veja mais notícias da região no G1 Campinas

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'Conheci e perdoei o índio isolado que me flechou no rosto'


Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-sertanista da Funai José Meirelles descreve episódios marcantes nos quase 50 anos que dedicou à proteção de povos isolados na Amazônia, como diálogo com indígena que o emboscou e o dia em que teve de 'matar um índio para sobreviver'. Nascido em São Paulo, José Carlos Meirelles abandonou a faculdade de engenharia para se dedicar à proteção de povos indígenas isolados na Amazônia, onde passou quase meio século vivendo nas matas Arquivo pessoa/BBC Com a ajuda de um intérprete, o sertanista José Carlos Meirelles conversava com um grupo de índios recém-contatados nas cabeceiras do rio Envira, área de Floresta Amazônica no extremo oeste do Acre. Os indígenas, membros do povo Tsapanawa, contavam histórias de confrontos com o grupo inimigo Mashco Piro. Meirelles então mostrou a cicatriz de um ataque que ele próprio havia sofrido uma década antes naquela mesma área, perto da fronteira com o Peru. Uma flecha lhe atravessou o rosto da bochecha à nuca, encharcando sua roupa de sangue e quase lhe tirando a vida. Um indígena riu ao ouvir o relato. "Ele apontou e falou: 'lá está o cara que te flechou'", conta Meirelles à BBC News Brasil. A revelação poria fim a um período conturbado na relação dos Tsapanawa com servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) liderados por Meirelles e escalados proteger o território do grupo. Também encerraria um capítulo nos quase 50 anos de carreira que o sertanista dedicou à proteção de indígenas isolados - experiência que lhe rendeu muitos ensinamentos sobre a vida nas matas, mas também momentos de pânico e dor, como quando diz ter "matado um índio para sobreviver". Emboscada no rio Quando Meirelles foi flechado, em 2004, já fazia 15 anos que ele vivia na base da Funai na confluência do igarapé Xinane com o rio Envira, responsável por vigiar um vasto território onde se estima haver três ou quatro etnias jamais contatadas. Ele saía de canoa para pescar quando um grupo de Tsapanawa, etnia ainda isolada naquela altura, armou-lhe uma emboscada. Depois da primeira flechada, certeira, Meirelles aportou o barco e fugiu pela margem, correndo em zigue-zague. Ouviu o zunido e sentiu o vento de uma segunda flecha passando por cima de sua cabeça. Desviou de outras flechadas, deu um tiro para o alto e gritou por ajuda. Só então foi resgatado e salvo por colegas da base. Um dos grupos isolados no Envira, no Acre; Funai diz que há 107 registros da presença de povos não contatados na Amazônia brasileira Divulgação/Funai Dez anos depois, os Tsapanawa buscaram o contato com o mundo exterior, passaram a viver perto da base da Funai e explicaram a Meirelles o motivo da emboscada. Os índios lhe contaram ter sofrido um ataque de "uns caras assim que nem tu, meio vermelhão, de cabelo meio branco, barbudo". "'Quando a gente viu você, pensou: olha ali o parente do cara que matou a minha mulher'. Foi aí que eu peguei a flechada. Simples." Meirelles diz que os povos isolados da região lidam há vários anos com agressões de madeireiros e narcotraficantes que trazem cocaína do Peru para o Brasil. Quando levou a flechada, ele imaginou que o grupo estivesse encurralado e aproveitou o episódio para defender, em entrevistas à imprensa e em Brasília, a importância de proteger aquele território. Depois do diálogo revelador, o sertanista foi procurado pelo autor da flechada. O homem "estava desconfiado, achando que eu ia querer vingar, perguntando se eu não ia matar ele". Meirelles respondeu que não e o perdoou pelo ataque. "Eu disse: 'esquece isso aí, foi sem querer'. Não sei se ele ficou envergonhado ou se ficou com medo." Marechal Rondon e irmãos Villas-Bôas Incorporado pela Funai em 1970, quando abandonou a faculdade de engenharia para prestar um concurso público para a fundação, Meirelles segue uma tradição que teve entre seus expoentes o marechal Cândido Rondon (1865-1958) e os irmãos Villas-Bôas, personagens que procuraram mitigar o impacto das frentes de expansão econômica entre indígenas isolados. Os sertanistas, como eles ficaram conhecidos, foram bastante requisitados pelo governo durante obras que cruzaram territórios desses povos, como as rodovias BR-163 (Cuiabá-Santarém) e Transamazônica. Em 2009, a Funai extinguiu o cargo de sertanista e delegou a função à Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, responsável por proteger as áreas dessas etnias. A fundação diz que hoje há 107 registros da presença de povos isolados em toda a Amazônia brasileira. Também existem grupos nessa condição em outras partes do mundo, caso dos habitantes da ilha Sentinela do Norte, na Índia, onde o missionário americano John Allen Chau foi morto em novembro ao tentar evangelizá-los. Meirelles diz não lamentar a morte do americano. "Acho que eles deviam é dar um curso para os índios do Brasil. Esse negócio de flechar missionário, eu acho ótimo". Para o sertanista, nascido em São Paulo há 70 anos e hoje morador da capital do Acre, Rio Branco, catequizar indígenas é "a maneira mais fácil de matar sua cultura". Membros do povo Tsapanawa durante seu primeiro contato com o mundo exterior, quando visitaram a aldeia Simpatia, do povo indígena Ashaninka, no Acre Funai/Divulgação Ele conta que, quando chegou ao Acre, em 1976, havia missionários em todas as aldeias indígenas. Dez anos depois, todos foram expulsos pelas comunidades por não se alinharem com as novas ambições dos grupos. O expurgo ocorreu num momento em que os indígenas acreanos se mobilizavam para demarcar suas terras e revalorizar sua identidade, após serem explorados por donos de seringais por várias décadas. "O SPI (Serviço de Proteção ao Índio, órgão antecessor da Funai) nunca chegou ao Acre, então os índios aqui viviam à própria sorte nos seringais, trabalhando para danar para comprar uma camisa e tal. Não tinha o paternalismo, e por conta disso eles conseguiram se organizar mais rapidamente." Com a queda no preço da borracha após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os índios acreanos passaram a abandonar os seringais e a retornar para as aldeias. Segundo Meirelles, até os anos 1970, muitos grupos tinham deixado de se assumir como indígenas, envergonhados de suas origens. Trinta anos depois, quase todas as terras indígenas do Acre estavam demarcadas - e vários povos locais ganharam visibilidade internacional por realizar festivais xamânicos e receber turistas estrangeiros. "Hoje os índios aqui (Acre) só precisam da gente como amigos, eles caminham com as próprias pernas. E apesar de estarem na universidade, fazendo filme, vendendo cultura, fazendo festivais, continuam tão ou mais índios do que eram quando cheguei." Madeireiros, garimpeiros e traficantes Outro cenário se aplica aos povos não contatados do Acre, cada vez mais pressionados por invasões e ataques de madeireiros, garimpeiros e traficantes. Muitos desses grupos fugiram para as cabeceiras dos rios, na fronteira com o Peru, no tempo das chamadas correrias - quando donos de seringais organizavam ataques para matar ou escravizar índios. Permaneceram várias décadas nessas terras mais altas e inacessíveis, até que recentemente forasteiros começaram a dar as caras, principalmente do lado peruano da fronteira, forçando-os a buscar novos refúgios Brasil adentro. "No Envira, não sei como esses índios conseguiram sobreviver. Tem relatos e relatos de mortes", diz Meirelles. Em 1990, quando sobrevoou aldeias do povo Tsapanawa, o sertanista calculou que eles tivessem cerca de 150 membros. Depois do contato, Meirelles os ouviu descrever um ataque que dizimou o grupo - e que ele acredita ter sido promovido por traficantes. "Eles dizem que (o som do tiro) não foi 'pããã', foi 'tá-tá-tá-tá-tá'. Arma automática, metralhadora, fuzil automático, entendeu? Daqueles 150 que calculamos no sobrevoo, sobraram 35. O resto foi morto." O relato deu tração a uma mudança na postura de Meirelles em relação a índios isolados. Até então, ele se alinhava à posição atual do governo brasileiro, segundo a qual qualquer iniciativa de contato com esses grupos deve partir deles. De acordo com essa orientação, adotada desde 1987, cabe ao Estado apenas demarcar e proteger os territórios desses povos. Meirelles acha que a estratégia perdeu validade. "Naquela época (1987), o Brasil era outro, a Amazônia era outra, os índios eram outros." O sertanista diz que os povos não contatados estão cada vez mais próximos da sociedade envolvente - e que a política de mantê-los isolados pode fazer com que etnias inteiras sejam exterminadas. Ele cita um diálogo com os Tsapanawa em que os índios lamentaram não ter feito contato antes. "Eles falaram: 'p... merda, se a gente soubesse que vocês eram tão legais, a gente tinha vindo antes falar com vocês, e minha mulher estaria viva, meu filho estava vivo, não teriam matado não sei mais quem.'" Meirelles diz que é possível evitar que os encontros resultem em conflitos ou epidemias que aniquilem os grupos, como ocorreu tantas vezes no passado. No caso dos Tsapanawa, uma equipe da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) liderada pelo médico sanitarista Douglas Rodrigues vacinou todos os indígenas, prevenindo doenças que costumam ser mortíferas logo após o contato. "Faz quatro anos que eles estão contatados e não morreu nenhum índio de gripe, de coisa nenhuma. Se não tivessem feito contato, talvez o grupo já tivesse sido extinto pelos madeireiros lá no Peru e ninguém nem saberia." Conflitos étnicos Outro ponto crucial para o sucesso do contato foi o emprego de intérpretes do povo Jaminawa, falantes de um idioma próximo da língua dos Tsapanawa, do mesmo tronco pano. A comunicação fluiu e arrefeceu os ânimos. Meirelles diz que, mesmo que se saiba pouco de um povo isolado, é possível deduzir o grupo linguístico que ele integra, com base na região em que vive. No Acre, quase todos os povos pertencem ao tronco pano ou ao tronco aruak. Outro motivo para rever a política atual, segundo ele, é frear conflitos étnicos entre povos isolados. O sertanista diz que, no Alto Envira, "todo mundo é inimigo de todo mundo". Os Tsapanawa têm entre seus adversários os Mashco Piro, um povo isolado que não vive em aldeias fixas e costuma se deslocar em grupos grandes pela fronteira Brasil-Peru. Um dia, rapazes Tsapanawa foram caçar e voltaram à base da Funai com um colar e um arco Mashco Piro. "Só tem um jeito de você tomar um colar e um arco de um índio isolado. É matando ele." Em outra ocasião, há um ano e meio, um grupo Mashco Piro atacou uma aldeia Tsapanawa. Enquanto mulheres e crianças fugiam, o único homem presente, um velho, enfrentou os invasores e foi morto. Depois disso, todos os Tsapanawa passaram a viver perto da base da Funai, temendo novos confrontos. Meirelles afirma que será preciso negociar um "armistício" entre os grupos, assim como os irmãos Villas-Bôas fizeram após contatar povos indígenas que viviam em guerra no Xingu, nos anos 1940. "Vai ter que chegar uma hora, depois que fizerem o contato, de chamar todo mundo e falar: vamos acabar com esse negócio de se matar, porque o inimigo é outro." Para o sertanista, é inevitável que os grupos alterem sua cultura após o contato, mas ele não considera o processo necessariamente ruim. "Vai mudar muita coisa, vai perder muita coisa, vai índio ficar meio grilado, enlouquecido? Vai. Mas quem não se adapta morre, isso é Darwin." "Antigamente a gente curava gripe com ventosa e sanguessuga. Vamos voltar àquela época? Você acha que, se não tivesse aparecido nenhum português ainda na América, os Tupinambá de hoje seriam os mesmos de 1500? Eles mudam, mas se reinventam. A gente, no Renascimento, em 1500, não se reinventou?" Primeira visita à cidade Meirelles testemunhou o deslumbramento - e também as frustrações - experimentados por um grupo Tsapanawa na primeira vez que conheceram uma cidade, a pequena Feijó, no Acre. Enquanto visitavam um mercado, um indígena "pegou um monte de macaxeira embaixo do sovaco e saiu". Meirelles foi buscá-lo na rua e pagou pelos itens, enquanto explicava o que eram aqueles pedaços de papel que podiam ser trocados por comida. O índio quis saber como conseguir as notas. "Eu falei: para arrumar isso aí, tá vendo aquele campo ali do outro lado? Tem que passar o dia todinho agachado, cortando o mato, para o dono do roçado no fim do dia te dar uma notinha dessas, que só dá para comprar três macaxeiras. Ele falou: 'vixe maria, aqui é bonito, mas não vou ficar muito tempo, não'." Meirelles diz que, mesmo que sejam mantidos isolados, os indígenas farão contato com o mundo exterior para obter instrumentos metálicos - o que, aliás, já têm feito desde que os primeiros colonizadores chegaram à Amazônia. Mesmo após o governo demarcar 627 mil hectares para os grupos isolados do Envira, os indígenas saíam do território para furtar terçados (facões) em comunidades vizinhas. "Se demarcássemos um milhão de hectares, continuariam saindo. Se fossem 5 milhões, eles iriam buscar terçado em Rondônia. Porque, meu amigo, um machado, um terçado é uma espada jedi. Ninguém tem nem lembrança mais de um índio isolado fazendo roçado com machado de pedra." Outro fator que, segundo Meirelles, motivará os grupos a deixar o isolamento é a curiosidade. "Assim como eu tinha muita vontade de ir à aldeia dos isolados e ver como eles viviam, eles também tinham a maior curiosidade de vir conversar com a gente. Pensavam: 'Vamos ver como é esse negócio que faz 'tu-tu-tu-tu' e corre em cima d'água?' Então eu acho que esse processo, embora ele possa ser demorado se o território estiver tranquilo, eu acho que daqui a 20 ou 30 anos, não vai ter mais um povo isolado no planeta Terra." Indígenas no governo Bolsonaro É possível que o próximo governo mude a postura em relação aos povos isolados. Em entrevista recente, Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos - órgão ao qual a Funai ficará subordinada -, disse que a "política do isolamento" de indígenas poderá ser abandonada. Mesmo assim, Meirelles está pessimista com o futuro governo - e diz que os índios poderão enfrentar um cenário ainda mais difícil do que o da ditadura militar (1964-1985). "Naquele tempo, os militares mandavam a gente fazer uma coisa, e a gente ia lá falar com os índios e fazia outra. Como eles não iam ver o que a gente estava fazendo, porque era longe para cacete, tinha mosquito para danar, a gente fez outra coisa e os índios conseguiram sobreviver ao regime militar - o que teriam conseguido se não fosse a gente também, mas talvez não com a quantidade de terras demarcadas." Meirelles diz ainda que naqueles anos a opinião pública e os grandes veículos jornalísticos eram favoráveis aos índios. Hoje, porém, afirma "que a grande mídia não está nem aí" para o tema - e passou até a difundir discursos contrários à causa em coro com o presidente eleito, Jair Bolsonaro, que prometeu acabar com as demarcações de terras indígenas e liberar atividades econômicas nas áreas já delimitadas. Meirelles critica a influência que líderes religiosos exercerão na Funai no próximo governo. Damares Alves, a futura ministra a quem a Funai responderá, é pastora evangélica. "Estamos entrando num processo muito complicado, porque há dois jeitos de você matar uma cultura: primeiro, é deixar o cara sem terra. Depois, mudar a cosmologia, entrar com a religiosidade." "Do jeito que estão essas bancadas evangélicas, da bala, do agronegócio, estou com medo de os índios começarem a perder terras, mesmo áreas que já foram demarcadas. O (Parque Indígena do) Xingu, por exemplo, é uma ilha no meio da soja. Quem sabe daqui a uns cinco, seis anos, no Xingu só tenha soja?" Morte de índio isolado Apesar do cenário sombrio que vislumbra, Meirelles está prestes a deixar o front. Em fevereiro, vai se mudar para uma casa a 50 metros da praia em Arraial d'Ajuda, na Bahia. "Passei a vida toda cuidando dos outros, agora vou cuidar de mim." Mas não se distanciará totalmente dos índios. Depois da mudança, Meirelles pretende trabalhar num livro de memórias sobre o tempo que passou nas matas. Em algum momento, ele terá de se debruçar sobre um dos momentos mais difíceis que já enfrentou e que o assombra até hoje. Pouco depois de se mudar para o Acre, Meirelles participava de uma expedição com seu então sogro quando os dois se viram cercados e atacados por um grupo de índios isolados, do povo Mashco Piro. O sertanista reagiu com um único disparo, atingindo um dos agressores. O índio caiu morto. Ele afirma que, se não tivesse atirado, teria morrido. O caso não lhe rendeu punições porque as autoridades julgaram que ele agiu em legítima defesa. "Eu preferi sobreviver. É uma contradição desgraçada: passei a vida toda defendendo os índios, e um dia tive que matar um índio." O incidente se tornou público após o próprio Meirelles citá-lo num relatório à Funai. O sertanista afirma que, embora a morte do índio o atormente até hoje ("e muito"), o episódio o fez aprender "o que é o ser humano". "Na hora do aperto, do vamos ver, nessas situações extremas, a gente mostra o bicho que é. Eu sou humano, igual a um Tsapanawa quando flecha um Mashco piro, ou vice-versa. Eu não sou diferente deles."

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Área com 17 mil indígenas no AM tem atualmente um médico e espera novos profissionais do Mais Médicos


Em uma das aldeias, índios constroem centro médico para ajudar na fixação dos futuros profissionais. No Brasil, 59% das vagas não ocupadas estão nos distritos indígenas. No AM, índios temem falta de médicos com saída de cubanos Uma área com 17 mil indígenas e 120 aldeias está na lista dos distritos indígenas que concentram 59% das vagas não ocupadas dos Mais Médicos. O Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Parintins, no Centro Amazonense, tem atualmente somente um médico atuando, conforme o diretor do distrito, José Augusto. Narcotráfico, piratas e conflitos de terras: problemas marcam região de distritos indígenas do AM que seguem sem médicos Mais Médicos: maioria das vagas não ocupadas está nos distritos indígenas Preencher todas as 12 vagas de profissionais deste Dsei está entre as missões do Ministério da Saúde, que prorrogou prazos dos editais para todas as vagas ainda abertas no Brasil e que espera que os mais de 8 mil médicos formados no exterior que se inscreveram na 2ª etapa do programa preencham 100% das vagas, inclusive nas áreas isoladas (veja íntegra do posicionamento do ministério ao fim da reportagem). Os desafios, porém, são vários, conforme constatou a equipe de reportagem do G1 em visita ao distrito (veja abaixo) e no levantamento dos cenários (distância do local, perfil do médico e plano de carreira) que tornam as vagas menos atrativas para os médicos. Das 106 vagas que não foram ocupadas no Mais Médicos, 63 estão em Dseis. No Brasil, 301 dos 529 médicos nos distritos indígenas eram cubanos — 57%, segundo o Ministério da Saúde. A população atendida nos distritos de saúde indígena é de 818 mil pessoas, segundo o governo federal. Distrito indígena de Patintins Crédito: Claudia Ferreira / G1 Isolamento e carências A viagem é longa até a aldeia Kassauá, onde vive o povo Hixkaryana, no coração do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Parintins. Eles também estavam entre os povos indígenas beneficiados pelo atendimento dos médicos cubanos. Para alcançar a aldeia Kassauá preciso pegar um avião e viajar 40 minutos até a sede do Dsei de Parintins. De lá, são mais dois dias de barco até a comunidade, que fica a mais de 280 km do município de Nhamundá. Com a baixa adesão de novos profissionais, o cacique do povoado lamenta o fim da parceria com Cuba. Desde a implantação do programa e da chegada de cubanos ao interior do Amazonas, os passaram a receber – e aceitar – a ajuda da medicina tradicional. Aprenderam o valor do convívio e da ajuda externa. Abriram as portas de sua Mayá (a grande casa de encontro da aldeia) para aqueles que abraçaram a saúde indígena. Agora, eles lamentam a falta de médicos. Com a saída dos cubanos, foram abertas 12 vagas para o Mais Médicos na área indígena. Segundo o Ministério da Saúde, ao fim do edital da primeira etapa de seleção, três vagas seguiram em aberto na área. O diretor do distrito, José Augusto, no entanto, diz que apenas duas delas foram preenchidas. Nove se inscreveram, mas não se apresentaram ainda. Na última sexta (14), o Ministério da Saúde prorrogou o prazo de apresentação dos médicos para o dia 18 de dezembro. Atualmente, apenas um médico – brasileiro formado em Cuba – é responsável pelo atendimento de 17 mil indígenas, distribuídos em mais de 120 aldeias. Por lá, a maioria dos atendimentos é voltado a problemas musculares crônicos, que são muito comuns entre os índios da região, e problemas estomacais. O primeiro decorre da prática e constância do esforço físico dos índios. O segundo está diretamente relacionado à má qualidade da água consumida. Cacique geral da tribo se preocupa com falta de interesse de brasileiros em trabalhar nos DSEIS Douglas Henrique/Rede Amazônica O cacique da tribo – ou tuxaua, como também é reconhecido em sua etnia -, José Henrique Kawonoxa, eleito pelo grupo em 2016, atua como uma espécie de prefeito-xerife na aldeia. Em tom de lamento e com discurso claro de insatisfação, ele levanta a bandeira do abandono quando é questionado sobre a situação da saúde da sua comunidade. "Agora, preocupação é como vamos ficar. Será que médicos brasileiros vão querer trabalhar aqui? Será que vão gostar de ficar na aldeia? Isso me preocupa”, diz o tuxaua geral. "Todos nós, indígenas, ficamos muito tristes com a saída dos cubanos dos polos base de atendimento. Para nós a notícia é muito ruim. Todas as aldeias da região reclamam da volta dos cubanos", comenta. Aos médicos, sobram elogios e agradecimentos. "Queremos agradecer médicos que trabalharam aqui na aldeia, aqui no atendimento à população indígena. Com a notícia da saída dos médicos, nós queríamos agradecer pelo bom trabalho feito aqui na aldeia. Eles atenderem ao povo. Todos os pacientes." Hixcaryanos vivem em aldeia isolada à margem do Rio Nhamundá Douglas Henrique e Paulo Frazão/Rede Amazônica Construção de nova UBS A relação dos indígenas da região com o serviço de saúde pública andava tão boa que índios decidiram participar ativamente da construção de uma réplica da sede do Dsei de Parintins, com uma Unidade Básica de Saúde Indígena, para que, dali da foz do Rio Nhamundá, médicos pudessem ter melhores condições de trabalho. Enquanto mulheres ficam responsáveis pela cozinha e suprimentos da obra, índios fazem o transporte de materiais de construção para o novo Dsei. São necessários ao menos 60 homens para conseguir levar os materiais como tijolos e cimento pelo rio de difícil navegação. A obra é pública e financiada por repasses federais. Mas conta com os braços do povo hixcaryano. Índios atuam em construção de nova sede de Centro Médico na aldeia, em Nhamundá Douglas Henrique e Paulo Frazão/Rede Amazônica Na última semana, o povo participou de uma Conferência Nacional de Saúde Indígena. Em pauta, estavam as mudanças no atendimento e as providências que o próprio povo reconhece e sugere. "Uma conferência está sendo realizada aqui na aldeia Kassauá para falar disso. Nessa comunidade é importante, porque vamos apresentar [ao Estado] propostas para melhorar a saúde indígena. Vamos mostrar a nossa realidade. E essas propostas vão ser encaminhadas aos delegados distritais", diz o cacique. Em meio à incerteza da saúde indígena, o tuxaua geral faz apelo ao Estado: "Hoje eu peço aos kaiowás [brancos]: eu sou liderança daqui, representante dos povos hixkaryanam, sou tuxaua geral. Peço que o estado e o município nos apoiem nas nossa ações". Preenchimento das vagas remanescentes A primeira etapa de seleção dos Mais Médicos, voltada para profissionais brasileiros, foi encerrada no dia 7 de dezembro. Dos 8.411 profissionais aprovados nela, 5.891 (cerca de 70% deles) já haviam se apresentado nos municípios até 17h de sexta-feira (14). O Ministério da Saúde prorrogou até a próxima terça (18) o prazo para os médicos se apresentarem nos municípios onde escolheram trabalhar. Para preencher as vagas que faltam, foi aberto um novo edital, que também inclui profissionais formados no exterior que não validaram o diploma no Brasil. Até sexta (14), 8.630 médicos haviam completado a inscrição, cujo prazo termina no domingo (16). A partir do dia 20, os profissionais com registro no país terão nova oportunidade para se inscrever no programa e escolher os municípios disponíveis. Nos dias 27 e 28, será a vez de os médicos formados no exterior escolherem onde querem trabalhar. Depois, em 3 e 4 de janeiro, os estrangeiros sem registro no país podem se candidatar a vagas. Posicionamento do Ministério da Saúde Sobre o baixo preenchimento de vagas em áreas indígenas por profissionais do Mais Médicos, o governo enviou ao G1 o posicionamento abaixo. Procurada, a Funai não quis se manifestar. "O Ministério da Saúde tem tomado medidas necessárias para preencher as vagas de médicos cubanos que atuavam pelo Programa Mais Médicos por meio da cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), garantindo a assistência aos brasileiros, inclusive aqueles que moram nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). É importante ressaltar que o novo edital ainda está em vigência. Os profissionais com registro no Brasil que escolheram localidades estão na fase de se apresentarem onde irão atuar. Nessa primeira chamada foram preenchidas 98,7% (8.411 profissionais alocados) das 8.517 vagas disponibilizadas do Edital vigente. Até o momento, existem 63 vagas abertas em DSEI para as próximas etapas. Ou seja, das 332 vagas disponíveis em distritos indígenas, 18,9% (63) não foram escolhidas pelos profissionais. Na próxima semana será feito um balanço das vagas disponíveis, o que soma as desistências e as aquelas que não tiveram procura. Então, os profissionais com registro no país (CRM) terão nova chance para se inscrever no programa e escolher as localidades disponíveis. Vale lembrar, ainda, que também está em andamento uma chamada para profissionais com registro fora do Brasil. Até esta quarta-feira (12), 9.261 profissionais formados no exterior já haviam iniciado as inscrições. No Brasil, são 34 DSEIs divididos estrategicamente por critérios territoriais e não, necessariamente, por estados, tendo como base a ocupação geográfica das comunidades indígenas. Além dos DSEIs, a estrutura de atendimento conta com postos de saúde, com os Polos base e as Casas de Saúde Indígena (Casais). O Ministério da Saúde busca o aprimoramento constante das ações em saúde dos povos indígenas, sempre observando e respeitando as práticas de saúde e os saberes tradicionais e articulando com os demais gestores do SUS a promoção de atividades complementares e especializadas. Para viabilizar essa assistência, o Ministério da Saúde utiliza transportes aéreos (aviões e helicópteros), terrestres (caminhonetes, caminhões, vans) e aquáticos (barcos) para a remoção de pacientes em consultas médicas, atendimentos de urgência e emergência e no transporte das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) em áreas específicas de programas desenvolvidos pela pasta." *Reportagem especial de Paulo Paixão, Douglas Henrique e Paulo Frazão.

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E quando Afrodite fica velha?


Psicóloga afirma que o envelhecimento feminino pode ser libertador se a mulher se desapegar de demandas sociais e papéis institucionais Devo à médica Karla Giacomin uma pequena joia: o livro “A segunda vida – um guia para a mulher madura”, escrito por Marisa Sanabria. A obra só pode ser encontrada em sebos virtuais, mas deverá ser relançada ano que vem. Psicóloga com 35 anos de prática, mestre em filosofia e especialista no tema do feminino, ela trata a questão do envelhecimento em suas oficinas com uma pergunta: “e quando Afrodite fica velha?”. Sua resposta: “as mulheres podem ter um envelhecimento repleto de amargura, ou transformar essa etapa da vida num momento libertador. No entanto, o caminho não é tentar, a todo custo, continuar sendo a Afrodite dos 25 anos”. Marisa Sanabria: psicóloga com 35 anos de prática, mestre em filosofia e autora de “A segunda vida – um guia para a mulher madura” Acervo pessoal No livro, Marisa utiliza depoimentos de pacientes para ir encadeando os ensinamentos. “Sempre fui bonita, acostumada a chamar atenção. Hoje ninguém me olha. Está muito difícil me acostumar” – diz uma. “Fui a princesinha do pai, depois do marido. Meu trabalho era ficar bonita para agradar. Agora, sem pai e viúva, qual é o meu lugar?”, é o desabafo de outra. “A maturidade é um momento de reformular propósitos, mudar atitudes. Precisamos nos desapegar de demandas sociais, solicitações familiares e papéis institucionais, deixar o que não é nossa tarefa e não sustentar aquilo que já não nos interessa”, escreve. Esse desprendimento inclui a relação com o próprio corpo. Muitas não aceitam a imagem refletida à sua frente e ela explica: “estão presas a um corpo anterior e a uma imagem externa. Desqualificam-se e tentam se fazer invisíveis por não compreender que é possível ter beleza, harmonia e encantamento em qualquer época da vida”. Uma das melhores lições é sobre o papel libertador do mito de Lilith, que pertence à tradição judaica. Segundo a lenda, Lilith foi a primeira mulher de Adão e não se submeteu a ficar debaixo do corpo do homem durante o sexo, desafiando a ordem patriarcal. O mito mostra o feminino percebido como uma ameaça, identificado como a transgressão. Depois de expulsá-la do paraíso, Deus cria Eva, que vive a sexualidade vinculada à maternidade. Marisa trabalha com grupos o que chama de “Oficina Lilith”, para que pensem “quantas vezes foram Eva e que preço pagaram por isso”. Acrescenta: “o momento Lilith de cada uma é saber colocar limites sem culpa. Não é preciso agradar o tempo todo para ser aceita”. Mais um depoimento é a tradução perfeita desse padrão de comportamento feminino: “não podia falar ‘não’ para o meu filho. Ele pediu para eu ficar com minha neta, mas eu tinha programado um passeio com minhas colegas do clube. Resultado: fiquei com raiva, mas a culpa não me deixou tomar outra atitude”. Ao abordar o modelo de maternidade que é desempenhado de forma vitalícia, Marisa, aponta o erro de tratar filhos adultos da mesma forma como quando eram crianças. “Uma coisa é ser mãe, condição irreversível que se adquire quando se tem filhos, e outra coisa é desempenhar o papel materno como eterno – até porque ele é transitório e caduca. A compreensão desse fenômeno nos liberta e nos permite entender que nossos filhos precisam construir sua própria história. Esse discernimento evita manipulações, chantagens e jogos de poder de quem espera e cobra dos filhos o reconhecimento por tanta dedicação”. Também busca inspiração na mitologia grega, valendo-se da figura de Hécate, deusa cujo nome significa “a distante”: é a sábia anciã que aguarda nas encruzilhadas e observa o passado, o presente e o futuro. “Hécate trabalha com o silêncio e a reflexão. É para onde me dirijo, como vou conduzir minha vida quando tiver 80 ou 90 anos”, ensina. Ao final de cada capítulo, há exercícios para se pensar e escrever sobre medos, sentimentos e transformações. Apesar dos desafios associados à longevidade, ela se mostra otimista, com uma ressalva: “estou me referindo ao homem e à mulher dos centros urbanos, com condições de cuidar da saúde. O Brasil é um país que se adapta muito rapidamente e a consciência dos cuidados para um envelhecimento saudável já existe. Visitei recentemente a Espanha e me surpreendi como lá os idosos alimentam-se mal e não fazem exercícios”.

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Nasa publica primeiras fotos da sonda InSight tiradas do espaço


Fotos mostram os escudos traseiro e térmico da sonda e foram postadas em uma das contas do Twitter da agência espacial americana na quinta (13). A InSight chegou a Marte no mês passado. A nave espacial InSight da Nasa, seu escudo térmico e seu paraquedas foram fotografados em 6 e 11 de dezembro pela câmera HiRISE a bordo do Mars Reconnaissance Orbiter da Nasa. NASA / JPL-Caltech / Universidade do Arizona. A Nasa, agência espacial americana, publicou as primeiras fotos da sonda InSight em Marte, desta vez tiradas do espaço. As fotos foram publicadas na conta do Twitter da sonda última quinta (13). Nelas, é possível ver os escudos traseiro e térmico da InSight. A sonda chegou ao planeta vermelho no mês passado, depois de percorrer 482 milhões de km em sete meses de viagem. Parte de sua missão é informar dos esforços para enviar algum dia exploradores humanos ao planeta vermelho — algo que a Nasa espera concretizar na década de 2030. Na última terça (11), a agência também havia postado uma "selfie" da Insight em Marte: Insight Mars registra a primeira 'selfie' no planeta vermelho Nasa/JPL-Caltech A sonda não tem capacidade de detectar vida no planeta — isso será deixado para os futuros robôs. A missão da agência em 2020, por exemplo, irá coletar rochas que possam conter evidências da vida antiga. Foi a oitava vez que a Nasa conseguiu fazer um pouso em Marte. Este é o primeiro desde 2012, quando o explorador Curiosity pousou na superfície marciana e analisou as rochas em busca de sinais de vida que possa ter habitado o planeta vizinho da Terra, agora gélido e seco. Initial plugin text Confira as fotos da quinta (13) abaixo: InSight vista do espaço. Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona Paraquedas e escudo traseiro da InSight em Marte, vistos do espaço. Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona Escudo térmico da InSight em Marte, visto do espaço. Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona.

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‘Morri por 5 minutos’: os jovens que sofrem infartos fulminantes aos 20 e poucos anos


Males não diagnosticados provocam mortes precoces; desafio é identificar pessoas com problemas congênitos e tentar prevenir paradas cardíacas, diz médico. Lora D'Alesio se lembra do momento em que seus lábios começaram a ficar azuis e sua respiração cessou. "Meu coração tinha parado", conta a britânica ao programa Victoria Derbyshire, da BBC. "Eu estava sem vida, fiquei morta por cinco minutos. Pelo que sei, os médicos trabalhavam sem parar para me trazer de volta à vida." Lora havia sofrido uma parada cardíaca, algo bastante inesperado considerando que ela tinha apenas 24 anos de idade. Só no Reino Unido, estima-se que 80 mil jovens britânicos tenham problemas cardíacos não diagnosticados, segundo a Fundação do Coração do país. Se não tratados, esses problemas podem ser fatais. No Brasil, segundo o Datasus, 596 pessoas de 20 a 29 anos morreram de infarto agudo do miocárdio em 2016. Lora teve um infarto aos 24 anos de idade e hoje tem um marcapasso ARQUIVO PESSOAL/CEDIDA AO BBC VICTORIA DERBYSHIRE No caso de Lora, que trabalha como enfermeira veterinária, o infarto aconteceu três anos atrás. Ela perdeu a consciência ao chegar em casa do trabalho. Ela ainda não sabia, mas tem um problema cárdiaco chamado síndrome do QT longo - um mal hereditário que afeta o ritmo do coração, fazendo com que este leve mais tempo para se recarregar a cada batida. "Eu disse (à minha colega de casa) que me sentia zonza e, quando ela se virou para mim, eu já estava no chão. Ela achou que eu estava brincando." Lora foi salva pela equipe de emergência e levada ao hospital, onde passou três dias em coma. Quando acordou, chorava sem parar. "Eu estava tão confusa", lembra. "Você pensa que só as pessoas mais velhas caem mortas por conta de problemas cardíacos, mas não as jovens. Na minha idade, eu pensava, 'não, de jeito nenhum'. Imagine só, eu tinha só 24 anos." Prevenção O tema ganhou destaque no Reino Unido porque uma nova pesquisa da Fundação do Coração calculou que 83 mil pessoas de 15 a 25 anos podem ser portadoras de um gene defeituoso que as deixa sob um risco alto de desenvolver males cardíacos ou morrer subitamente, ainda na juventude. Muitas dessas pessoas nunca vão ter qualquer problema no coração, mas, como esse problema é subdiagnosticado, outras possivelmente só descobrirão serem portadoras quando sofrerem uma parada cardíaca. Elijah Behr, médico-sênior da Universidade de Londres, diz que, embora males cardíacos hereditários sejam raros, "se somarmos todos eles, chegamos a um número significativo (de pacientes)". "Tanto que 1.500 jovens morrem anualmente no Reino Unido desses males hereditários. E o desafio é identificar essas pessoas e tentar prevenir essas mortes." Behr pesquisa formas de determinar as causas genéticas de paradas cardíacas, na expectativa de avançar na prevenção de mortes súbitas. Alguns médicos defendem que jovens passem por exames obrigatórios que busquem problemas cardíacos ocultos; outros, porém, acham que antes precisamos de mais pesquisas antes de colocar ideias do tipo em prática. Dan e seu pai Barry; jovem morreu após sofrer parada cardíaca enquanto jogava futebol ARQUIVO PESSOAL/CEDIDA AO BBC VICTORIA DERBYSHIRE Jogando futebol Em 2016, Barry e Gill Wilkinson perderam o filho Dan, de 24 anos, que morreu subitamente durante uma partida de futebol. O garoto levava uma vida saudável e ativa - chegou até mesmo a jogar na equipe juvenil de um time britânico. "Ele tinha um problema cardíaco sério, mas não havia nada que indicasse a ele, ou a nós, de que havia algo errado", conta seu pai. "Vinte quatro horas antes (de morrer), ele havia falado conosco pelo Facetime, e estava normal." Dan tinha uma cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito (ARVC), que enfraquece a parede do coração e pode causar uma parada cardíaca. Ele perdeu a consciência enquanto jogava, e seus colegas de equipe telefonaram para Barry. Mas, quando o pai chegou ao local, Dan já estava morto. "É algo que te deixa em choque", conta Gill, mãe de Dan. Barry seca as lágrimas enquanto o casal lembra como queria ter podido dizer ao filho "eu te amo" uma última vez. Hoje, eles comandam uma ONG que distribui desfibriladores para serem usados em campos de futebol amador. Um deles chegou a ser usado para salvar a vida de um menino de 14 anos que teve uma parada cardíaca enquanto jogava. 'Sorte de estar viva' A jovem sobrevivente Lora D'Alesio agora dedica parte de seu tempo a compartilhar sua história. "Quero muito que os jovens tenham consciência de que isso pode acontecer com eles. Doenças cardíacas não discriminam ninguém", diz. Ela hoje tem um marcapasso e carrega um desfibrilador, que eventualmente pode ser usado para salvar sua vida. Mas, por enquanto, ela diz tentar aproveitar cada dia. "Aceito os convites mais aleatórios que meus amigos fazem, porque nunca se sabe quando (uma parada cardíaca) pode acontecer novamente e me matar. Quero viver a vida ao máximo. Tenho sorte de estar viva."

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